O Circo de Lucca
Thursday, July 10th, 2008
Começo com esse post algo que eu já estava querendo fazer aqui no blog do 4º Mundo há um bom tempo mas sempre venho postergando, que são resenhas de histórias em quadrinhos brasileiras. E não pretendo me limitar a apenas as publicações independentes (ou mesmo a publicações impressas), pois como disse o Luiz Gê uma vez, no Brasil os quadrinistas não são undergrounds por opção, mas por natureza. E por falar em Luiz Gê, vamos começar com uma resenha de uma obra de um de seus pupilos, Jorge Otávio Zugliani, também conhecido simplesmente como Jozz, ou ainda, Jozzus! =)
Trata-se de O Circo de Lucca, obra que o Jozz produziu como trabalho de conclusão de curso na faculdade de design gráfico, e acabou sendo publicado pela Devir como uma luxuosa graphic novel no começo deste ano.
A trama de O Circo de Lucca é simples e não possui nada de extraordinário. A obra conta a história de Lucca, um estudante universitário que precisa fazer uma história em quadrinhos como trabalho pra sua faculdade, mas está sofrendo de um “bloqueio criativo”. E na busca por sua história, Lucca terá uma série de “encontros e desencontros” com seus amigos, colegas de apartamento, e com seu professor. Aliado a isso, está as aparições de um enigmático palhaço, um personagem que Lucca cria no começo da história, mas que renega, e por isso o palhaço passa a “atormentá-lo”.
Se a trama de Lucca não tem “nada demais”, o grande trunfo da história está no modo como ela é contada, através de uma série de metalinguagens e experimentações narrativas (sendo que pra mim, a mais fabulosa são as mútiplas leituras narrativas que podem ser feitas da página 44 a 47, ao se recortar os quadros da página 46). Mas apesar dessa característica da metalinguagem ter sido o principal fator a ter chamado a atenção da crítica e dos leitores em geral para a obra, na minha opinião, o que faz de O Circo de Lucca uma HQ extraordinária é a forma como ela constrói o herói da história e o conduz por sua jornada de aprendizado e conhecimento.
Pois o grande tema de Lucca é a pergunta “como nasce um herói?”, questionamento esse que é apresentado logo no começo da história. E a jornada do herói nessa história, é uma jornada dupla, em ambos os sentidos, já que o próprio Luca, além de ser herói de sua história, é ele próprio um criador de heróis e histórias. Agora vamos a um pequeno parêntese para entender o porquê desse movimento duplo da jornada de Lucca.
Na poética clássica, havia apenas duas coisa que diferenciava um herói de um deus, era a imortalidade e a consciência do todo. O herói da épica, por exemplo, podia ser tão forte, poderoso, e grandioso quantos os deuses, mas ainda assim estava abaixo deles por esses dois fatores. No entanto, havia um modo pelo qual o herói poderia se tornar imortal. Era pelo canto do aedo.
O aedo, o “bardo” helênico, tinha o poder de com sua histórias, imortalizar os heróis através do cantar de seus feitos. O herói assim seria lembrado para todo o sempre, e viveria a cada vez que suas histórias fossem cantadas-contadas, pois seus feitos seriam glorificados. Mas o aedo, com o auxílio das musas, não apenas imortalizava os heróis, como também imortalizava a si mesmo através do seu canto. E assim como o herói, também seria glorificado a cada vez que sua história fosse recontada por outras pessoas.
E é justamente esse processo que vai acontecer em O Circo Lucca com seu protagonista, e porque também não dizer, com o próprio autor da obra. As três primeiras páginas da histórias são praticamente uma evocação das musas, que assim como acontecia na épica, possuem a função de enunciar o herói e a sua jornada que a partir dali será narrada através do aedo-quadrinista. Mas Lucca vai além dos outros heróis, pois como herói-aedo-quadrinista, ele se iguala aos deuses, já que em sua jornada ele pouco-a-pouco toma consciência do todo. Lucca entende o funcionamento do mundo ao seu redor, ainda que num primeiro momento faça isso num nível mais “dionisíaco”. A única coisa que falta para Lucca para se tornar completo e imortal, é entender a si mesmo e qual o seu papel nesse seu universo.
Não bastasse o fato de ser herói-aedo, a complexidade de Luca como personagem aumenta ainda mais devido ao fato de Jozz não tê-lo criado a partir do arquétipo básico de herói. Ele preferiu para Lucca um arquétipo muito mais caótico e difícil de se trabalhar, que é o do pícaro-curinga, representado metaforicamente pela criação e alter-ego de Lucca, o Palhaço. O pícaro é um arquétipo difícil de ser trabalhado principalmente porque ele é um personagem camaleão, que pode assumir todos os outros arquétipo em si, conforme avança em sua jornada. Mas Jozz não deixa que isso o atrapalhe, e sabiamente usa todo o caos transmitido pelo pícaro para representar a evolução interna de Lucca, fechando deste modo o ciclo e concluindo a sua jornada de herói quando ele próprio se aceita como o Palhaço.
Esse para mim seria o final perfeito para o Circo de Lucca. Mas a opção de Jozz de estender um pouco mais a trama e fazer um final emulando de forma burlesca os finais de histórias policiais não é de todo ruim como vi muitos críticos dizerem. Muitos não entenderam que a seqüência encadeada de clichês (dos mais clichês mesmo) foi algo proposital do autor, principalmente para demonstrar a inadequação de Iago como vilão, algo que o próprio Lucca é também consciente como herói-aedo (e neste momento, já também como pícaro). Vejo esse final como um reforço da idéia de que o vilão de Lucca não é externo, mas interno. O grande oponente de Lucca é ele mesmo, e sua vontade desmedida de querer revolucionar o mundo com sua história. Nem tanto por causa dele mesmo, mas devido a pressão que ele sente de outras pessoas.
E é justamente aí que a mensagem da história emergi furiosamente e ganha um sentido amplo, principalmente para nós quadrinistas. Todo mundo, seja leitores, editores, ou até mesmo alguns quadrinistas, estão esperando por uma história em quadrinhos que salve o mercado brasileiro. Mas quem disse que ele precisa ser salvo? Porque essa necessidade das pessoas, não só nos quadrinhos, de sempre esperar pela vinda de um salvador? A coisa toda se torna mais irônica ainda quando você vê alguns críticos apontando o próprio Jozz como o grande salvador dos quadrinhos. Pois apesar de ser Jozzus, de salvador ele não tem nada. =)
O grande vilão de Lucca, por tanto, e que o impede de fazer os seus quadrinhos, é essa pressão tanto externa quanto interna que o obriga a criar a história mais revolucionária já feita (seja lá qual for esse conceito de revolucionáro). E Lucca só consegue derrotar o seu vilão quando ele percebe que contando uma história “simples” e “despretensiosa”, pode ser tão revolucionário quanto se tivesse a intenção e a pretensão de o ser. Uma história tão “simples” e “despretensiosa” quanto é o próprio “O Circo de Lucca”, que não tem pretensão nenhuma de revolucionar o mercado brasileiro de quadrinhos, mas simplesmente de proporcionar as pessoas uma boa história na qual elas podem ser divertir lendo por alguns minutos. E para aqueles que resolverem ler outra vez com mais atenção, há um bônus, pois poderão se surpreender adentrando nas camadas mais profundas da história.
E é por todo esses fatores que apontei, que eu considero “O Circo de Lucca” uma das melhores histórias que já li. E olhe que não estou me limitando apenas as histórias em quadrinhos brasileiras. Sequer estou me limitando as histórias em quadrinhos.



































Talvez não fosse suficiente pra dissolver o bloco de raiva que senti formar-se em meu estômago desde ontem, mas me encaminhei, depois da falta de semana passada, pro meu endereço de correspondência e encontrei lá mais do que esperava.
A melhor coisa no primeiro
Sábado e seus rituais. O endereço de correspondência ainda é o mesmo.
Dá uma nova dimensão à expressão lowlife, né-não? Sim, formas de vida ‘inferiores’ (leia-se: dotadas de um tipo diferente de ‘consciência-inteligência’ que nosotros, humanos, arrã, tenemos) são as mais bem-sucedidas nesta bola de lama porque andam por aqui literalmente há eras.
Esquisito.
Pra dizer como posso dizer o que pretendo dizer (redundante né?) e ter um receptor do outro lado da linha capaz de entender a mensagem, preciso contar com os poderes inerentes do continuísmo. 
