Archive for the ‘Resenhas’ Category

O Circo de Lucca

Thursday, July 10th, 2008
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O Circo de LuccaComeço com esse post algo que eu já estava querendo fazer aqui no blog do 4º Mundo há um bom tempo mas sempre venho postergando, que são resenhas de histórias em quadrinhos brasileiras. E não pretendo me limitar a apenas as publicações independentes (ou mesmo a publicações impressas), pois como disse o Luiz Gê uma vez, no Brasil os quadrinistas não são undergrounds por opção, mas por natureza. E por falar em Luiz Gê, vamos começar com uma resenha de uma obra de um de seus pupilos, Jorge Otávio Zugliani, também conhecido simplesmente como Jozz, ou ainda, Jozzus! =)

Trata-se de O Circo de Lucca, obra que o Jozz produziu como trabalho de conclusão de curso na faculdade de design gráfico, e acabou sendo publicado pela Devir como uma luxuosa graphic novel no começo deste ano.

A trama de O Circo de Lucca é simples e não possui nada de extraordinário. A obra conta a história de Lucca, um estudante universitário que precisa fazer uma história em quadrinhos como trabalho pra sua faculdade, mas está sofrendo de um “bloqueio criativo”. E na busca por sua história, Lucca terá uma série de “encontros e desencontros” com seus amigos, colegas de apartamento, e com seu professor. Aliado a isso, está as aparições de um enigmático palhaço, um personagem que Lucca cria no começo da história, mas que renega, e por isso o palhaço passa a “atormentá-lo”.

Se a trama de Lucca não tem “nada demais”, o grande trunfo da história está no modo como ela é contada, através de uma série de metalinguagens e experimentações narrativas (sendo que pra mim, a mais fabulosa são as mútiplas leituras narrativas que podem ser feitas da página 44 a 47, ao se recortar os quadros da página 46). Mas apesar dessa característica da metalinguagem ter sido o principal fator a ter chamado a atenção da crítica e dos leitores em geral para a obra, na minha opinião, o que faz de O Circo de Lucca uma HQ extraordinária é a forma como ela constrói o herói da história e o conduz por sua jornada de aprendizado e conhecimento.

Pois o grande tema de Lucca é a pergunta “como nasce um herói?”, questionamento esse que é apresentado logo no começo da história. E a jornada do herói nessa história, é uma jornada dupla, em ambos os sentidos, já que o próprio Luca, além de ser herói de sua história, é ele próprio um criador de heróis e histórias. Agora vamos a um pequeno parêntese para entender o porquê desse movimento duplo da jornada de Lucca.

Na poética clássica, havia apenas duas coisa que diferenciava um herói de um deus, era a imortalidade e a consciência do todo. O herói da épica, por exemplo, podia ser tão forte, poderoso, e grandioso quantos os deuses, mas ainda assim estava abaixo deles por esses dois fatores. No entanto, havia um modo pelo qual o herói poderia se tornar imortal. Era pelo canto do aedo.

O aedo, o “bardo” helênico, tinha o poder de com sua histórias, imortalizar os heróis através do cantar de seus feitos. O herói assim seria lembrado para todo o sempre, e viveria a cada vez que suas histórias fossem cantadas-contadas, pois seus feitos seriam glorificados. Mas o aedo, com o auxílio das musas, não apenas imortalizava os heróis, como também imortalizava a si mesmo através do seu canto. E assim como o herói, também seria glorificado a cada vez que sua história fosse recontada por outras pessoas.

E é justamente esse processo que vai acontecer em O Circo Lucca com seu protagonista, e porque também não dizer, com o próprio autor da obra. As três primeiras páginas da histórias são praticamente uma evocação das musas, que assim como acontecia na épica, possuem a função de enunciar o herói e a sua jornada que a partir dali será narrada através do aedo-quadrinista. Mas Lucca vai além dos outros heróis, pois como herói-aedo-quadrinista, ele se iguala aos deuses, já que em sua jornada ele pouco-a-pouco toma consciência do todo. Lucca entende o funcionamento do mundo ao seu redor, ainda que num primeiro momento faça isso num nível mais “dionisíaco”. A única coisa que falta para Lucca para se tornar completo e imortal, é entender a si mesmo e qual o seu papel nesse seu universo.

Não bastasse o fato de ser herói-aedo, a complexidade de Luca como personagem aumenta ainda mais devido ao fato de Jozz não tê-lo criado a partir do arquétipo básico de herói. Ele preferiu para Lucca um arquétipo muito mais caótico e difícil de se trabalhar, que é o do pícaro-curinga, representado metaforicamente pela criação e alter-ego de Lucca, o Palhaço. O pícaro é um arquétipo difícil de ser trabalhado principalmente porque ele é um personagem camaleão, que pode assumir todos os outros arquétipo em si, conforme avança em sua jornada. Mas Jozz não deixa que isso o atrapalhe, e sabiamente usa todo o caos transmitido pelo pícaro para representar a evolução interna de Lucca, fechando deste modo o ciclo e concluindo a sua jornada de herói quando ele próprio se aceita como o Palhaço.

Esse para mim seria o final perfeito para o Circo de Lucca. Mas a opção de Jozz de estender um pouco mais a trama e fazer um final emulando de forma burlesca os finais de histórias policiais não é de todo ruim como vi muitos críticos dizerem. Muitos não entenderam que a seqüência encadeada de clichês (dos mais clichês mesmo) foi algo proposital do autor, principalmente para demonstrar a inadequação de Iago como vilão, algo que o próprio Lucca é também consciente como herói-aedo (e neste momento, já também como pícaro). Vejo esse final como um reforço da idéia de que o vilão de Lucca não é externo, mas interno. O grande oponente de Lucca é ele mesmo, e sua vontade desmedida de querer revolucionar o mundo com sua história. Nem tanto por causa dele mesmo, mas devido a pressão que ele sente de outras pessoas.

E é justamente aí que a mensagem da história emergi furiosamente e ganha um sentido amplo, principalmente para nós quadrinistas. Todo mundo, seja leitores, editores, ou até mesmo alguns quadrinistas, estão esperando por uma história em quadrinhos que salve o mercado brasileiro. Mas quem disse que ele precisa ser salvo? Porque essa necessidade das pessoas, não só nos quadrinhos, de sempre esperar pela vinda de um salvador? A coisa toda se torna mais irônica ainda quando você vê alguns críticos apontando o próprio Jozz como o grande salvador dos quadrinhos. Pois apesar de ser Jozzus, de salvador ele não tem nada. =)

O grande vilão de Lucca, por tanto, e que o impede de fazer os seus quadrinhos, é essa pressão tanto externa quanto interna que o obriga a criar a história mais revolucionária já feita (seja lá qual for esse conceito de revolucionáro). E Lucca só consegue derrotar o seu vilão quando ele percebe que contando uma história “simples” e “despretensiosa”, pode ser tão revolucionário quanto se tivesse a intenção e a pretensão de o ser. Uma história tão “simples” e “despretensiosa” quanto é o próprio “O Circo de Lucca”, que não tem pretensão nenhuma de revolucionar o mercado brasileiro de quadrinhos, mas simplesmente de proporcionar as pessoas uma boa história na qual elas podem ser divertir lendo por alguns minutos. E para aqueles que resolverem ler outra vez com mais atenção, há um bônus, pois poderão se surpreender adentrando nas camadas mais profundas da história.

E é por todo esses fatores que apontei, que eu considero “O Circo de Lucca” uma das melhores histórias que já li. E olhe que não estou me limitando apenas as histórias em quadrinhos brasileiras. Sequer estou me limitando as histórias em quadrinhos.

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Nanquim Descartável #01

Monday, July 14th, 2008
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Nanquim Descartável 01Nanquim Descartável #1 | Outubro de 2007 | 32 páginas | 17cm x 26cm | capa colorida e miolo P&B

Teoricamente é fácil falar sobre Nanquim Descartável. Fácil porque é uma história em quadrinhos surpreendentemente boa. Só não é fácil por dois motivos: minha incapacidade de entender como se conseguiu chegar a este resultado. O outro motivo é obviamente minha inveja. É brabo falar desse pessoal que nos dá uma camaçada de pau (terminho aqui dos pampas) que você nem sabe de onde vieram os tapas, pontapés e socos.

Sempre fico muito surpreso quando um escritor (e não escritora) escreve sobre o universo feminino.

Conheço muitas HQs feitas por homens que dedicam seus roteiros e contos a personagens femininas, todavia a linha que separa o ridículo/forçado e o natural/suave, normalmente não é bem equilibrada. Porco chauvinista e ignorante que sou, acredito que esta tênue divisão é justamente característica da alma feminina, tão incompreendida pelos homens. É dito que todos os homens são iguais. Bom, meninas, Daniel Esteves não é. Vão atrás de Daniel Esteves*! Em Nanquim Descartável ele nos trás “As loucas aventuras de Ju e Sandra” (parace ter saído de chamadas de filmes da sessão da tarde), duas estudantes universitárias que dividem apartamento e se ‘aventuram’ em relações amorosas, trabalhos, festas, estudo e… quadrinhos. Sim, histórias em quadrinhos. Ju (cujo nome não é Juliana), estudante de jornalismo, escreve as histórias enquanto Sandra (cujo nome é Sandra), estudante de artes plásticas, desenha os quadrinhos.

De fato é impressionante o tom de realidade que você encontra neste trabalho. Esteves conseguiu imprimir uma personalidade aos personagens e seus diálogos que não consigo encontrar paralelos no mercado. Se você está pensando em Estranhos no Paraíso, esqueça. Depois de ler Nanquim Descartável vais considerar a obra de Terry Moore caricata e distante. Quem quiser chiar, que leia primeiro o Nanquim antes de abrir o bico. O texto é tão verossímil que parece que estão narrando alguma parte de sua vida cotidiana quando se tem vinte, vinte e poucos anos. E sem aquele lenga-lenga chato e aborrecido que são as chamadas “histórias adultas”. E muito menos aquele humorzinho fácil, senão nem estaria gastando meu tempo escrevendo esse achismo. Impressionante mesmo. Não sabia que podia ser feito isso nem desta forma.

A qualidade gráfica da edição não deixa a desejar – impressa em offset com papel apropriado. Os desenhistas – e eles são muitos, são competentes e percebe-se em todo o projeto um tom profissional e bem planejado. O que é outro destaque da revista. A idéia de misturar desenhistas – mantendo uma certa linha de ilustração, entre páginas apresentadas fora de uma ordem sequencial é fantástica. Contribuem nesta edição Wanderson de Souza, Julio Brilha, Alex Rodrigues, Wagner de Souza, Mário Mancuso, Bira Dantas, Carlos Eduardo com diagramação de Esteves e Rodrigo Priolo.

Queria ter a suavidade e compreensão do mundo que estas meninas possuem ao enfrentar a ‘louca aventura’ da vida.

Para saber mais sobre o trabalho acesse a HQ em Foco – e reclama prá eles lá uma dúzia de páginas de preview (pode dizer que fui eu que pedi). Você vai se surpreender.

*Meninas, já ia esquecendo: ele ainda por cima levou o HQ Mix de Roteirista Revelação.

Daniel Pereira dos Santos

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O Cabeleira

Thursday, July 31st, 2008
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Capa - O CabeleiraO Cabeleira é um dos mais recentes álbuns de quadrinhos publicados pela editora Desiderata. Escrito a quatro mãos por Leandro Assis e Hiroshi Maeda, e desenhado por Allan Alex, a HQ é baseada no romance de Franklin Távora, escrito em 1876. O livro conta a trágica história de José Gomes, mais conhecido pela alcunha de Cabeleira, um bandoleiro que escrotizou (pegando o termo emprestado do Jovem Nerd) a província de Pernambuco no século XVIII.

Nessa história em quadrinhos acompanhamos o Cabeleira em dois tempos distintos. Num primeiro momento, vemos o Cabeleira adulto, participando junto com seu pai José Gomes, e com o preso liberto Teosódio, de um assalto a uma igreja de Recife, e dos percalços que eles passarão durante a fulga. E num segundo momento, através de flashbacks, acompanhamos a infância de Cabeleira, em que nos é mostrado a relação que ele tinha com seu pai e como isso influenciou na sua personalidade e na sua conseqüente formação como bandoleiro na vida adulta. No fim, a obra se mostrará como uma excelente história de vinganças e desencontros, onde não há de fato heróis e apenas a violência impera, algo muito semelhante ao que acontece nos faroestes de .

E por falar em Leone, o que mais chama a atenção em “O Cabeleira” é a sua narrativa cinematográfica. E isso não acontece por acaso, já que Assis e Maeda escreveram primeiramente essa história como um roteiro para cinema, que foi inscrito num laboratório de roteiros de cinema promovido pelo Sesc. Desta forma, os desenhos de Allan Alex funcionam quase que como um storyboard pra história. Isso fica bem demonstrado nos diversos planos-seqüências de quadros sem um único balão. E principalmente nas seqüências de luta, em que Alex evita um dos erros que mais se vê nos quadrinhos (principalmente os de Super-Heróis), que é rechear as cenas de luta com vários balões de fala e recordatórios, quebrando desta forma o ritmo da ação. Apenas com seus desenhos e sua bela quadrinizaçao, ele consegue passar toda a dinâmica da cena e o sentimento emitido pelos personagens, tornando desta forma o texto desnecessário.

É por tudo isso dito até agora, que considero “O Cabeleira” como um dos melhores álbum de quadrinhos lançado neste ano. Aliás, é preciso louvar o excelente trabalho que a editora Desiderata vem fazendo, e muito disso, eu creio, deve-se ao fato da editora ter como editor alguém como o Sandro Lobo.

Eu já disse diversas vezes antes, e não custa repetir mais uma vez. Considero o Lobo um poucos editores de fato de quadrinhos que temos no Brasil, e não um mero “publicador”. E essa sua competência como editor de quadrinhos se deve a sua experiência com as HQs independentes que ele teve quando era editor da saudosa revista Mosh. Como disse o Paulo Ramos na sua declaração no youtube, a atual tendência de publicação de álbuns de quadrinhos com histórias mais longas pelas editoras, nada mais é do que uma conseqüência do movimento de publicações independentes do qual o Quarto Mundo faz parte. E o Lobo é uma figura que ajudou e está ajudando a consolidar esse movimento ao editar pela Desiderata álbuns de quadrinistas independentes que se destacaram, como é o caso de Fabio Lyra e sua “Menina Infinito”.

Por isso, foi com tristeza que recebi a notícia de que o Lobo deixará a coordenação editorial da Desiderata. Eu não estou por dentro dos motivos de isso ter acontecido, mas tendo em vista o ótimo cenário que os quadrinhos brasileiros vem vivendo, e muito devido ao ótimo trabalho do Lobo na Desiderata, só posso lamentar que isso tenha acontecido, pois a editora corre o risco de não continuar com o excelente trabalho que vinha fazendo. E segundo a nota do Universo HQ, ela pode até mesmo ser descontinuada.

Só me resta então ficar na torcida para que nada disso aconteça e que a Desiderata possa continuar nos presentiando com excelentes álbuns de quadrinhos como é “O Cabeleira”. E também que o Lobo possa continuar com seu excelente trabalho de editor, seja numa nova editora, ou até mesmo numa editora própria. Vamos torcer. =)

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Garagem Hermética #04

Tuesday, September 16th, 2008
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Garagem Hermética 4Talvez não fosse suficiente pra dissolver o bloco de raiva que senti formar-se em meu estômago desde ontem, mas me encaminhei, depois da falta de semana passada, pro meu endereço de correspondência e encontrei lá mais do que esperava.

O que esperava: um pacote (mais-que-bem-vindo) da Livraria Cultura;

Não esperava: o envelope com o #4 de Garagem Hermética.

Cumpri as obrigações de sempre funcionando no automático e voltei pra casa com o sólido propósito de me esbaldar no gibi. De longe, a melhor edição até agora, conta com a primeira parte da série Quadrinistas, de Cadu Simões e Kleber de Sousa. Apesar de ser tradicional, os autores usam recursos narrativos como personagens (mais referências à mitologia e drama gregos) eficientemente. Parece ser a nova tendência dos independentes fazer quadrinhos sobre quem faz quadrinhos (Circo de Lucca e Nanquim Descartável). O difícil é acertar a mão, ainda mais quando se trata de produção de equipe e não de uma só pessoa. Mas convém esperar novos episódios antes de avaliar.

Os Estranhos Vestidos de Preto traz um Fabio Cobiaco emulando o Ted McKeever da melhor fase pra valer. Bacana que só, com um clima A1 de inexplicado e sem a babaquice do realismo mágico latino-americano, benzadeus.

Transtorno, terror em prosa de Vince Vader, conto bastante promissor, curto e prestando homenagem a classicões do gênero, como O Caso de Charles Dexter Ward, só que com um viés psicológico.

Fábio Santos ousa um tantinho mais com Até o Fim… De Novo… dois painéis por página em quatro delas mais uma palavra. Além do título, claro. Funcionaria lindamente numa página quadrupla, mas faz sentido fracionada também.

Um texto de Nobu Chinen sobre a revista Balão que precisa ser lido. Aliás, os textos dele em todas as edições são bastante recomendáveis, apesar de, na #1, o que escreveu sobre a hq de Moebius que originou o nome da revista GH ter me deixado com os nervos, pra ser bem popularesco, à flor da pele. Quer dizer, o título do gibi francês é A Garagem Hermética de Jerry Cornelius e eu já estava chegando ao fim do artigo sem captar nenhuma menção à série de livros de Michael Moorcock… mas tudo se resolveu no último parágrafo. Jerry Cornelius, J.C. pros íntimos, inspirou tantos personagens e séries de quadrinhos seminais que seria criminoso deixar de mencioná-lo: Luther Arkwright, de Bryan Talbot; Gideon Stargrave, de Grant Morrison e, recentemente, Casanova Quinn, de Matt Fraction e Gabriel Bá.

Catzo! Acho que nunca escrevi tanto sobre uma revista nacional. E ainda não falei do melhor: o filé fica pro final, pra soar bem aliterado.

Edu Mendes comparece com mais duas peças irretocáveis.

Uma História Qualquer economiza no vocabulário verbal escrito e esbanja em ícones, símbolos e outras pictografias. Preste atenção redobrada às molduras dos painéis. Falar mais dela estragaria qualquer surpresa.

O Colecionador de Cheiros é outra experimentação digna de nota. Os 40% iniciais da história são ocupados por um perfil fake do pianista Artur (uma recorrência?) Linderman. Não dá pra falar muito dessa parte sem estragar a ironia fina de Edu. Preste atenção aos closes na terceira página, na expressão corporal e nos cenários nas subseqüentes. Tudo construído meticulosamente. Edu tem no currículo, que eu sei, pelo menos uma graduação em arquitetura. É importante notar como os quadrinistas brasileiros mais interessantes (Luiz Gê, André Kitagawa, Gil Tokio) têm o mesmo background.

Victor Hugo acertou em cheio ao estabelecer que arquitetura também era linguagem e contava histórias (em Notre Dame de Paris). Jorge Luis Borges fala, num ensaio belíssimo, dos pontos de contato entre a concepção arquitetônica do palácio de Kublai Khan e a poesia de Coleridge (em O Livro dos Sonhos). Corroborando tudo isso, o físico Niels Bohr acrescentou sua visão holística, quântica até, dizendo que todas as disciplinas trabalham sobre o mesmo material usando linguagens diferentes para descrevê-lo.

Verdade e beleza nunca estiveram tão unidas. A linguagem sintética dos quadrinhos nunca foi tão bem utilizada por brasileiros.

Boa sorte e boa noite.

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Café Espacial #01

Monday, September 29th, 2008
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Café EspacialA melhor coisa no primeiro Café Espacial é que, logo de cara, na capa, o plano editorial é revelado ao leitor. Fiquei confuso com o desmembrar de arte, a especificação de que ali encontraria hq e música, como se, sei lá, não fossem artes, mas isso é pentelhação minha, preciosismo e chatice.

Das hqs presentes, por exemplo, duas se esforçam, chegam quase a ser arte. Borboleta em uma Roda alia música e pintura pra falar da dor da separação, mas um ruído de comunicação, um recordatório redundante num painel que já mostra o que ele descreve, atrapalha o efeito desejado. Sob o Peso de Nossas Asas é visualmente poética, mas o texto não acompanha a arte. Mais um daqueles casos em que se percebe a discrepância entre os níveis do time criativo. Dá pra dizer sem titubear que Laudo domina o jogo da linguagem e já deu vários passos adiante na consolidação de seu estilo.

As três curtas, curtíssimas de DW, Quando Quiser Desaparecer, Prenda a Respiração; Negrume e Ponto são chocantes. Ainda ontem tava falando disso com Léo Andrade, que se a gente quer fazer hq não adianta muito travar quando se falha em escrever/desenhar como o autor que serve de inspiração, aquele favorito que se ama e odeia ao mesmo tempo. Tem que fazer com os recursos, habilidade, sensibilidade disponíveis e tentar alcançar um resultado genuíno. É isso que DW faz em suas peças: a arte pode parecer bidimensional e abusar dos closes, mas tem tudo a ver com a natureza intimista das observações, quase sempre em primeira pessoa… um gostinho indie de autobiografia preso nos dentes depois do consumo. Mais leve e com uma boa sacada sobre o mecanismo da idealização que sublima impulsos biológicos procriativos/recreativos, Do Outro Lado da Rua, de Fábio Lyra, casa a linha clara com a visão feminina das personagens.

Contos em prosa agradáveis, corretos… único que poderia agredir o paladar politicamente correto vigente é Gol de Placa, de Lídia Basoli, e por isso mesmo é o melhor. Lídia sabe das contradições que fazem o ser humano, bom, humano, e apesar de não ter encontrado uma voz como Eder Saragiotto, autor de O Único, usa o que tem com verve. Saragiotto ousa com a linguagem, experimenta um pouco mais, e traz a notícia subjetiva de um amor homossexual platônico. Sérgio Chaves usa um truque lingüístico bacana em Velhos Amigos que me fez lembrar duma das muitas bandas esquecidas dos anos 80…

E falando em música, Cafeína Pura é a seção da dita cuja, com entrevistas de duas bandas e resenhas de demos e cds. Me abstenho de comentar A) por desconhecer a produção das bandas; B) por conta da surdez parcial que me acometeu em 98.

Tem ainda uma entrevista essencial com Flávio Colin, que foi um verdadeiro desbravador da HQB e acreditou no sonho. Chaves apertou os botões certos nessa aqui e trouxe um Colin burilado e tarimbado pro leitor.

Ainda: Mais uma Dose, de Talita Prado e Diabo a Quatro, de Lídia Basoli e Rafael Rodrigues. O texto de Rodrigues sobre Niemeyer é poético na melhor acepção do termo. Lídia mata a pau com o seu sobre Leminski, um dos meus poetas favoritos e confirma a impressão causada por seu conto de que ela entende mesmo a contraditoriedade da natureza humana.

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Muertos

Tuesday, October 14th, 2008
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MuertosSábado e seus rituais. O endereço de correspondência ainda é o mesmo.

Lá estavam as duas cópias de Muertos, hq de Daniel Pereira dos Santos baseada num conto de Zanthos Aybrom (que nome cabuloso! Queria ter inventado um assim pra mim!).

Eu já tinha lido boa parte de Muertos online, no site do Daniel, que tem ainda mais meia dúzia de boas histórias, um documento de sua evolução como artista de hqs. A tal diligência no trabalho de que falei noutro dia.

Quando soube que ele faria uma edição impressa, deixei de acompanhar o material na rede e esperei pelo lançamento. Sim, a hq é boa desse jeito. Tá, eu sei que o conteúdo não muda, mas a leitura de uma hq analógica traz uma experiência tátil que a digital ainda não permite (quem sabe um dia). Cheirar o papel, tatear etc., etc…

Muertos é anticonvencional. Não é à toa que a trama se desenrola na fronteira. Alguém até pode lembrar do filme de Beto Brant (Matadores), mas a história é muito mais que isso. Pra começar, pense no que é uma fronteira.

É um limite geográfico, a linha que separa o conhecido do desconhecido? Ou não? A fronteira é a narrativa de um conto em prosa transformado em hq? É uma fronteira de linguagens? É, como sugerido na primeira pergunta da série, a fronteira atravessada pelo neófito em sua jornada iniciática? Ou a fronteira do espaço-tempo, da memória, da ficção e da autobiografia?

Você tem um narrador em primeira pessoa, mas não é uma história policial, não é uma trama detetivesca e, apesar da camada ‘hardboilled’, das armas, palavrões, loiras (não fatais) e outras convenções do gênero, trata mesmo é da humanidade, das falhas, dos sonhos, do apego aos pequenos momentos e às pequenas coisas que assimilamos, deixamos relegadas à memória, à qual recorremos nos momentos difíceis.

A arte é um capítulo à parte, claro.

Desenhos e storytelling servem perfeitamente à narrativa., chiaroscuro da melhor qualidade, climão perfeito. O conto é de Aybrom, mas roteiro e desenho são de Daniel. É trabalho de equipe, é trabalho de um homem só? Mais uma fronteira, n’est ce pás?

Em Muertos a ilusão de tempo cronológico se esgarça e rasga, revelando o agora, a única coisa que existe, o ‘momento’ do zen.

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Camiño Di Rato #01

Sunday, December 7th, 2008
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Camiño Di Rato #01Dá uma nova dimensão à expressão lowlife, né-não? Sim, formas de vida ‘inferiores’ (leia-se: dotadas de um tipo diferente de ‘consciência-inteligência’ que nosotros, humanos, arrã, tenemos) são as mais bem-sucedidas nesta bola de lama porque andam por aqui literalmente há eras.

E eu estava pensando em adotar uma nova filosofia condizente com minha condição de roteirista-fake e e(x)scr(e)itor: o tao da bactéria! Não o ‘tal’ pronome demonstrativo, sabe? o fritzjof popularizou com o seu, ‘da física’. Simples-né?

Mas como sempre acontece com as idéias razoáveis, alguém chegou antes de mim… a de que quem faz ficção e, mais especificamente ainda, quadrinhos, é uma forma de vida inferior (espero que ninguém se ofenda… é só ler no contexto que tudo fica bem), apesar de não ser obrigatoriamente bem sucedida. E fizeram uma revista.

Matheus Moura (nome aliterado, jornalista, treina aiki-do… será a identidade secreta de um supa tupiniquim?) e Rosemário são os responsáveis pela empreitada impressa Camiño Di Rato que é uma revista de VERDADE. Sério, até no formato.

e logo de cara juntaram sujeitos como Danton & Eder, Greco, Franco, Andraus, Bentes, Martins, Freiberger, Marçal, Ivo, Eremita e, claro, eles mesmos. MM ainda assina duas peças jornalísticas sobre hqb e vegetarianismo(no contexto faz todo sentido!). o problema de falar de qualquer revista que traga material tão diversificado é não dar a impressão de que os caras simplesmente pegaram o que estava à mão e imprimiram, que a antologia não passa de um ‘saco de gatos’, só pra manter a metáfora do ‘mundo animal’ com que comecei.

tem gente que vai pegar, ler, e não sacar que a proposta é justamente essa: diversidade.

os veteranos Franco e Andraus, por exemplo, entram com hqs lírico-filosóficas, não exatamente o que o leitor de supas espera, ou o leitor de histórias com ‘enredo’ espera. Beto Martins faz uma digressão bacana com As Boas Intenções, que me parece ser a cereja no bolo da revista. estas entram naquela categoria mais subjetiva, como convém à crônica e à poesia.

Danton & Eder enveredam por outro camiño, a biografia, denúncia ou nenhuma das anteriores com Como Ser Emganado Por um Psicopata. O Antonio continua sendo um dos desenhistas mais versáteis com quem trabalhei (ponha juntos aí o sr. Aguiar e meu camarada Daniel, além, é claro, do meu parceiro no crime, Jean Okada).

Mesmo deixando a desejar no quesito enredo, Endoparasitas chama atenção pro potencial artístico de Greco, mas não se trata de arte de revistinhas de homens-bombom. É mais aquela coisa punk, de garagem, suja… um trampo que me faz lembrar do Mutarelli dos anos 90.

Rosemário e MM vão com sêlo de recomendação desta bactéria-escriba que vos fala. Até um painel solto do primeiro já vale o preço de admissão. Nem vou falar da capa que o cara fez, seria covardia. E os textos do Matheus, cara… mesmo sendo onívoro, pensei seriamente nas conseqüências do consumo de carne. O texto sobre hqb só não ficou melhor por conta de uma revisão menos acurada. Mas não se pode ter tudo logo de cara, na 1ª edição, n’est ce pas?

Será que eles aceitam contribuições de microorganismos?

Não custa tentar.

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NoiteLuz

Saturday, January 10th, 2009
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NoiteLuzEsquisito.

Andando a esmo pelo Gonzaga sem muito mais a fazer que entrar em livrarias e procurar o que ler, meu cenário de todo fds, recorrência bio-geográfica… praia dum lado, comércio do outro.

Entro na loja. No meio dela, em seu coração, tem um balcãozinho dedicado aos gibis. Sim. Claro que são gibis com preço de livraria, não aqueles que eu comprava antes, em outro ponto da linha da vida, nas bancas geridas por velhinhos turrões.

Às vezes os gibis têm pretensões de ser mais que uma narrativa visual, daí as pessoas mudam seus nomes. Chamam de ‘arte seqüencial’. Não vou dar uma de hipócrita. Também faço isso. Mas no fundo sou o mesmo moleque de sempre que gosta de gibis.

Neste dia algo inexplicável aconteceu: um gibi que eu queria muito ler tinha chegado. Inexplicável porque, apesar de ser uma loja em que entro sabendo que o dono está preocupado em ‘servir bem para servir sempre’, não é o tipo de lugar em que se encontra material pelo qual se anseia. Eu comprei o bichinho, tão parecido com um de meus livros em prosa queridos e fui com ele pra casa, e o deixei entre os seus.

Ficou lá, parado, sem reclamar, até hoje.

A graça de NoiteLuz, de Marcelo D’Sallete, não está na prosa afiada ou na arte expressiva. Seus personagens são calados, até taciturnos, e só eles falam, não há narrador onisciente. A arte é eficaz, conta a história mostrando-a sem pressa. Há cortes temporais e os elementos fundem-se aí. Deixa de ser só desenho+palavra, vira narrativa. D’Sallete usa um recurso kielowskyano como frame device, uma moldura na qual as vinhetas individuais dos personagens se encaixam. Dá pra lê-las como narrativas autocontidas ou como crônica do bar, cenário, moldura em torno do qual as coisas acontecem, as vidas convergem.

Não tem pretensão, esse gibi quietinho… é humano, só isso. O que me agradou mais foi a presença de um herói, calado e taciturno como seus colegas de cena, o herói inesperado e nem por isso menos heróis. Ele não salva a todos, claro, pois é um herói humano, nem protagoniza as histórias em que participa, às vezes quase como se fosse parte do cenário. É um herói invisível, um herói do universo de antimatéria, que tememos tocar e ignoramos “pro nosso próprio bem”.

Como nos faroestes de Leone ou nas tramas detetivescas de Hammet, sequer tem nome. Diferente destes, não faz ‘justiça com as próprias mãos’, sequer mata uma mosca. Só interfere… como uma divindade benévola em que ninguém crê, que ninguém vê.

Ou quer ver.

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O Contínuo #07

Monday, February 9th, 2009

Marina Contra TodosPra dizer como posso dizer o que pretendo dizer (redundante né?) e ter um receptor do outro lado da linha capaz de entender a mensagem, preciso contar com os poderes inerentes do continuísmo.

Quando falo em continuísmo (antes que alguém me corrija, sei que é continuidade) o que pipoca imediatamente são os supas e suas aventuras inesgotáveis… cada leitor de quadrinhos de super-heróis pra entender a cronologia de suas personagens preferidas a) depende de uma memória invejável ou b) faz uso constante da rede em busca de informações.

Michael Chabon ganhou um Pulitzer há uns anos escrevendo sobre sósias espirituais de Shuster & Siegel e sua criação ficcional, o Escapista. Pra mim este é o super-herói/metáfora definitivo no que concerne à função-fantasia do mundo seqüencial de cores primárias. Qual o poder do Escapista? Exato! E as pessoas estão dispostas a despender uma quantidade extraordinária de energia a fim de fugir da realidade.

É enrolado, mas se esforce um pouquinho que talvez o contorcionismo mental valha à pena.

Quem acompanha minhas elucubrações desde o começo sabe que são pouquíssimas parcerias nas HQs e, particularmente, nas HQbs, que me impressionam. E, depois dessa enrolação toda posso finalmente dar nomes aos bois, melhor, à equipe que conseguiu o feito. Mas antes nosso intervalo comercial, pero no mucho.

Posso me considerar privilegiado por no ano passado ter aproveitado o recesso entre semestres pra ir à Sampa garimpar livros e HQs. Numa dessas comics shops inevitáveis em que entrei tinha lá, na prateleira mais oculta possível, envergonhada até, um monte de gibis nacionais. Inclusive as edições de O Contínuo do #4 em diante mais o especial Câncer.

A WWW é uma coisa não? Graças à ela eu já tinha conhecimento do trabalho dos caras e pude finalmente satisfazer minha curiosidade a respeito dele com as bênçãos do comic book guy de plantão (felizmente nada parecido com a figura de Os Simpsons). ‘Esses caras são muito bons’, ele disse.

Acho que escrevi isso na entrada anterior mas não custa repetir. Como em boa parte das publicações independentes nacionais, o que se vê nessas edições supra de O Contínuo são curtas, boas histórias, mas curtas. Arte hors-concours. Roteiros interessantes que demonstram interesse em algo que acho essencial pra diferenciar a produção tupiniquim da gringa: usar a linguagem dos quadrinhos como algo novo, mesmo, explorar os limites… tão pouca gente mexeu com isso.

Não li os números iniciais da publicação mas esses que citei já demonstravam um arco ascendente de entrosamento do grupo. São, sei lá, três ou quatro caras escrevendo e outros tantos desenhando. Quando li Câncer vi que a sintonia tinha melhorado e a equipe tava apontando numa direção que acho bacana… ao invés de várias HQs curtas, uma mais longa com a colaboração de todo mundo.

Quantos Chris Wares a gente tem em oposição aos clones de clones de clones de quem quer que seja o artista em voga nos gibis de supas?

E aí, depois de tanta volta, chego em O Contínuo #7, que li já faz tempo e de que vou tentar falar de memória (lembra do leitor de quadrinhos citado muitos parágrafos atrás? Sou eu).

Tentei ler as resenhas escritas pelos bem-intencionados críticos de plantão e fiquei meio que cismado… ‘será que tou vendo chifre em cabeça de cavalo?’

Uns diziam que Marina Contra Todos era uma história divertida e que devido à execução impecável não precisava de maiores motivos pra ser. Outros faziam referências cinematográficas que talvez não estivessem no foco de atenção dos produtores.

Sim, MCT é uma HQ divertida. Sim, há referências cinematográficas na história. Quem entende um mínimo de fazer quadrinhos sabe que a gente rouba de várias fontes (aí entram formas de arte verbais, visuais e audiovisuais) a fim de sintetizar uma experiência única.

Marina é uma adolescente em fuga (lembra do Escapista?), mas ao invés de ser perita em escapologia, ela é praticante de free running, ou Le parcours, escolha o sabor, melhor, a língua estrangeira.

Ela foge de casa e sua intenção é fugir da cidade (talvez fosse melhor dizer da realidade). Cidadãos até então pacatos (velhinhas, motoristas de táxi, transeuntes alheios a tudo e todos) empenham-se em impedi-la.

Os caras montaram as narrativas concorrentes emulando recursos de um filme sim, mas não o do alemão Tykwer. Natural Born Killers, do Stone, com roteiro do Tarantino. Tem até uma sitcom de coroas pontilhada por uma claque de risadas inevitável. É uma das fugas paralelas a de Marina.

Outra fuga, a do motorista de táxi e leitor de auto-ajuda disfarçada pra comerciantes, executivos and the like que se vê, subitamente, em posição de ‘gerenciar’ algo e tenta fazer uso dos ‘conhecimentos’ adquiridos.

A fuga de que mais gosto é a do morador de rua. E aqui os caras pegam essa expressão que a maioria usa de modo inconseqüente e levam às últimas conseqüências, um dos pontos altos da narrativa e talvez o mais engraçado, mas não de um jeito politicamente correto.

E, como se trata de uma publicação com esse nome, a equipe fez uso do continuísmo, devolvendo uma personagem que apareceu e desapareceu numa edição anterior à atmosfera… com direito à queima na reentrada e grande impacto na calçada.

O efeito dominó e a interpolação das quatro storylines é executado de forma competente e única apesar de, como dito antes, ser resultado de trabalho de equipe. Porque, meu chapa, tua vida e tuas ações afetam as outras pessoas.

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Revistas de HQ ou mix cultural?

Sunday, December 13th, 2009
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Artigo de Pedro de Luna para o JBlog Quadrinhos

Uma coisa que eu já venho observando faz algum tempo é que as revistas de quadrinhos estão virando cada vez mais uma publicação mix, com espaço para contos, poesias, entrevistas, cinema e outros bichos. A caixa postal do JBlog recebeu por correio três delas, de diferentes partes do país, mas com este traço em comum. Com o perdão do trocadilho.

GARAGEM HERMÉTICA # 05

Da capital paulista vem a quinta edição da revista editada por Edu Mendes, Cadu Simões, Roberta Bronzatto, Fabio Santos e Kleber de Sousa, que coletivamente atende pelo nome de Sócios Ltda. “Nos conhecemos em um curso na Gibiteca Henfil em 2005 e temos publicado juntos desde então”, explica Edu.

E como é editar coletivamente uma revista?
“Em geral funciona assim: cada um dos artistas do grupo prepara sua HQ e nos reunimos pra ver quantas páginas temos e quantas faltam pra fechar a revista. A partir daí vemos o que nos foi enviado de colaboradores e se estes trabalhos se encaixam na edição daquele número. Então vamos montando o quebra-cabeça que é o boneco da Garagem até chegarmos em algo entre 32 e 36 páginas. Às vezes, pedimos algo em especial pra algum autor de quem gostamos, como foram os casos do Cobiaco e do Sam Hart, mas em geral selecionamos a partir do que recebemos por email ou por conhecidos. Queremos material bem autoral para a revista, então nunca pedimos alteração para os artistas em suas HQs. Ou aceitamos ou recusamos”.

Como flui essa divisão do espaço entre quadrinhos e textos?
Edu responde:“Apesar de reservarmos um espaço maior para as HQs, nossa intenção sempre foi de publicar textos, pois pelos comentários que tivemos, o público gosta desse mix de HQ e textos. Já chegamos inclusive a publicar narrativas que misturavam texto e quadrinhos. Temos, desde o número 1, um articulista cativo que faz muito sucesso que é o Nobu Chinen, do Observatório de Quadrinhos da USP. Seus textos são sempre elogiados e sei inclusive de algumas pessoas que sempre começam a leitura da revista pelos artigos do Nobu. Além dele, eu e Roberta já publicamos textos nossos, e recentemente encontramos um colaborador (Vince Vader) que nos mandou diversos textos interessantes e que temos publicado desde o número 4”.
Hq de MAnhã

Mas falando sobre HQs, nesta edição destaco “De Manhã” (acima), de Dark Marcos (roteiro), Laudo (desenho) e Omar (arte-final), que remete às HQs de Will Eisner, onde consegue ver poesia no cruel cotidiano urbano do trabalhador. Luzes também sobre “Um Garçom dançarino e suas tragédias” (abaixo), de Daniel Esteves (roteiro) e Wagner de Souza (arte), que explica como uma coisa pode levar a outra. No caso um ex-garçom que vira stripper e as conseqüências disso. A matéria de Nobu sobre a revista Raw, de Art Spiegelman, também compensa o investimento de R$ 5.
garçom web

CAFÉ ESPACIAL # 05

Quem também chega ao quinto número é a revista bacana editada em Vera Cruz, interior de SP. Nesta edição, chama a atenção as HQs “Inferno de boas intenções”, de Sergio Chaves (roteiro) e Allan Ledo (arte), sobre o dilema de um cara em trair ou não a namorada numa balada. E também “Joaquina Pede Água”, do mesmo Sergio com arte de Sueli Mendes, sobre os últimos momentos de vida de uma idosa. Vale a pena também ler a entrevista com a banda Venus Volt e, claro, conhecer o som deles.

Curiosamente, as duas histórias que mais gostei são do próprio editor, Sergio Chaves. Uma fala de traição, outra de morte. São seus temas favoritos?
“De certo modo, sim, pois gosto muito de temas urbanos, dramas. Tanto nos quadrinhos ou fora deles. Particularmente gosto de gêneros diversos, mas para a Café Espacial priorizo essa linha de histórias”, explica.

A Café é uma revista de HQ, mas também de cinema, literatura, etc. O público tem gostado ou tem gente que só lê uma ou outra coisa?
“Há um público que prefere exclusivamente uma arte a outra, mas trata-se de um público menor, mesmo. Em geral, temos conseguido ampliar o nosso público a cada nova edição – ora trazendo (para os quadrinhos) leitores não tão familiarizados com os HQs ora criando leitores entre os amantes de fotografia ou de música”.
Adquira a sua pelo blog deles.

HQ PARA DIVULGAR BANDA DE ROCK

O músico Evandro Vieira já esteve antes aqui no JBlog, quando do lançamento do livro ”Grosseria Refinada”, agora o vocalista da banda Quebraqueixo, de Brasília, surge com uma revista em quadrinhos que, curiosamente, saiu antes do disco. Mas por que?

“Na verdade, o projeto todo é para o primeiro trimestre de 2010. Publicaremos um livro grande e luxuoso, colorido e de capa dura. O CD irá encartado e todas as músicas ganharam adaptação para os quadrinhos. Com o início do ano letivo, faremos 14 shows, seguidos de oficinas de quadrinhos em escolas públicas do Distrito Federal, tudo com o apoio da Secretaria de Cultura do DF. Como já tínhamos um bom material pronto, resolvemos bancar do próprio bolso esse gibi para divulgarmos no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) em BH, onde tivemos uma ótima recepção”.

Cada autor recebeu apenas uma música para ouvir, a que ele mesmo teria que desenhar? “Como o disco ainda não estava pronto, os desenhistas receberam apenas as letras. Fiz a seleção dos artistas mais ou menos de acordo com o traço que a música sugeria. Desenhar sem ouvir a música foi um desafio que eles tiveram que encarar e acreditamos que todos se saíram bem”.
hq quebraqueixo musica mordida

Em que você se inspirou para este projeto?
“Com tanta oferta de música grátis, vender CD é difícil até para bandas grandes. Quando o Quebraqueixo começou a pré-produção do CD, pensamos em estratégias para divulgar nosso trabalho de maneira diferenciada. Queríamos algo que tivesse apelo visual e que chamasse a atenção, os quadrinhos foram a saída perfeita”, explica o vocalista e quadrinista. “Misturar música e HQ, não é algo exatamente inédito, mas pouco explorado. No Brasil, posso citar como exemplos bem-sucedidos as parcerias entre Luis Gê e Arrigo Barnabé; Marcatti e Ratos de Porão; Angeli e Raimundos; Zimbres e Mechanics. Acredito que esse tipo de experiência vai virar tendência nos próximos anos”. Deus te ouça, meu amigo.

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